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Eucalipto: o novo pau-brasil

Plantios comerciais sustentáveis movimentam R$ 24,7 bilhões por ano na Bahia, beneficiam 242 mil pessoas e ajudam a proteger a Mata Atlântica, onde a árvore que deu nome ao Brasil encontra condições ideais para crescer em harmonia

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16 de Outubro de 2026

Porto Seguro, 22 de abril de 1500. A chegada da esquadra portuguesa a essas terras, então chamada de Ilha de Vera Cruz, foi marcada por descobertas que impressionaram os exploradores, como registrou Pero Vaz de Caminha em sua carta de 1º de maio daquele ano ao rei de Portugal, Dom Manuel I. Além das araras, dos rios, da extensão da terra, os "arvoredos mui muitos e grandes, e de infinitas espécies" foram mencionados com encantamento. Uma dessas espécies, poucos anos depois, chamaria em especial a atenção dos estrangeiros: o pau-brasil, que logo começou a ser explorado para que dele fosse extraída, na Europa, a base para uma tinta vermelha usada para tingir tecidos. A descoberta deu início ao primeiro ciclo econômico da colônia, marcado exclusivamente pelo extrativismo. A exploração da espécie se estendeu até 1859, quando chegou ao fim o monopólio estatal sobre ela.

Quase 10 anos depois, em 1868, uma espécie de árvore originária principalmente da Oceania – o eucalipto – chegaria ao Brasil, já independente de Portugal, inicialmente para ser usada como planta ornamental, até que, em 1904, sua madeira passou a ser utilizada também como lenha para as caldeiras das locomotivas e na fabricação de postes e dormentes de ferrovias. Rico em fibras de qualidade e com rápido crescimento, o eucalipto se adaptou tão bem ao solo e ao clima do país que, a partir dos anos 1940 e, sobretudo, na década de 1960, seu cultivo abriu caminho para o surgimento de indústrias de celulose e papel no Brasil. Mais uma vez, as árvores passaram a projetar o Brasil, mas não apenas para a Europa: para o mundo todo. E com um grande diferencial: o extrativismo que pressionava a Mata Atlântica no passado, deu lugar ao cultivo sustentável no presente e comprometido com o futuro.

Se a exploração do pau-brasil no país teve início pelo Extremo Sul da Bahia, o cultivo comercial de eucalipto no estado começou no final da década de 1970, no Litoral Norte e Agreste, na região dos municípios de Alagoinhas, Entre Rios e Inhambupe. Nessa região, atualmente, o eucalipto é cultivado, principalmente, pela Bracell, para produção de celulose solúvel; pela Ferbasa, no processo produtivo de ferroliga; e pela Energias Renováveis do Brasil (ERB), para cogeração de vapor e energia elétrica. Já no Extremo Sul da Bahia, o cultivo foi iniciado na década de 1980, em Alcobaça, Caravelas, Ibirapuã, Mucuri, Nova Viçosa, Prado e Teixeira de Freitas, pela Bahia Sul Celulose (hoje Suzano) e pela Aracruz (incorporada também pela Suzano). Fundada em 1991, a Veracruz Florestal, hoje Veracel, uma joint venture entre a Suzano e a sueco-finlandesa Stora Enso, levou os plantios, a partir do ano seguinte, a municípios mais ao norte, como Eunápolis, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Belmonte.

De acordo com a Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf), instituição que representa as empresas de base florestal do estado e seus fornecedores, a Bahia tem 660 mil hectares de florestas plantadas, quase todas de eucalipto, destinadas principalmente à produção de celulose para papel e de celulose solúvel para as indústrias de viscose, medicamentos, cosméticos, alimentos, pneus, tintas e outras. Em 2024, segundo a Abaf, as empresas associadas produziram cerca de 3,3 milhões de toneladas de celulose, 240 mil toneladas de papel e 48 mil toneladas de papéis para fins sanitários, como papel higiênico e papel-toalha.

Práticas sustentáveis

Um ponto em comum entre as empresas é o compromisso com a sustentabilidade das operações. A percepção acerca da seriedade do setor com esse assunto foi destacada, já em 2001, pelo canadense Patrick Moore, ex-integrante da ONG Greenpeace. Segundo uma publicação da Penn State School of Forest Resources, nos Estados Unidos, Moore acredita que "a atividade florestal é a mais sustentável de todas as indústrias primárias que nos fornecem energia e materiais". Associando o uso de produtos florestais ao estímulo ao plantio de árvores, Moore também defende que, para enfrentar as mudanças climáticas, é necessário "usar mais madeira e não menos".

Alexandre Lanna, diretor-presidente da Veracel Celulose, destaca que a empresa "está conectada ao território e orientada por uma visão de longo prazo, em que sustentabilidade, competitividade e desempenho caminham juntos. Nosso compromisso é seguir gerando valor com responsabilidade, fortalecendo relações de confiança e ampliando parcerias que contribuam para o futuro da região".

Em terras baianas, são plantadas, diariamente, cerca de 292 mil mudas de eucalipto, o equivalente a 16,2% do total levado ao campo por dia em todo o Brasil – algo em torno de 1,8 milhão, de acordo com dados da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), associação que representa institucionalmente a cadeia produtiva de árvores plantadas, do campo à indústria, no país.

A disponibilidade de terra para o plantio diário desses milhares de mudas não vem da supressão da vegetação nativa – uma regra de ouro na gestão das operações. Os plantios de eucalipto são feitos em áreas já antropizadas, anteriormente ocupadas por pastagens e agricultura. Além disso, os remanescentes de mata nativa são mantidos quando as propriedades são ocupadas com reflorestamento.

Uma das técnicas mais adotadas nesses casos é a formação de mosaicos florestais, que intercalam os plantios com a vegetação original e formam corredores ecológicos. Esses corredores auxiliam na conservação do solo e na regulação do fluxo hídrico, abrigam centenas de espécies da flora e da fauna silvestres e contribuem para a dispersão natural de sementes, o enriquecimento da vegetação e o aumento da diversidade florística.

Outra medida importante é a não adoção de queimadas para a preparação dos terrenos para os plantios. Após a colheita, aliás, os restos florestais – cascas, galhos e folhas dos eucaliptos – são mantidos no campo, contribuindo para proteger o solo contra a incidência direta dos raios de sol e da chuva, ajudando na absorção da água e evitando erosões.

"Esse conjunto de práticas visa a garantir a manutenção [das áreas] a longo prazo, conciliando a produção de bens e serviços florestais com a preservação do ecossistema. Esse manejo, que ajuda a recuperar o solo e a qualidade ambiental, segue as diretrizes da política de sustentabilidade da empresa, além de atender às legislações aplicáveis", explica João Fernando Silva, gerente sênior florestal da Bracell.

Tiago Pereira, consultor de Sustentabilidade da Suzano, acrescenta que "os corredores ecológicos funcionam como pontes verdes que conectam áreas antes isoladas, permitindo que espécies circulem, se alimentem, se reproduzam, além de aumentar a cobertura vegetal nesses ambientes. Na prática, eles reconectam trechos de floresta separados por atividades humanas, como pastagens ou plantios".

Desenvolvimento econômico

Longe do há muitos anos superado (pre)conceito de ser chamado de "deserto verde", os cultivos de eucalipto representam "um mar de oportunidades" para a economia do estado e do Brasil. A começar pela geração de empregos.

Uma das profissionais do setor é Tatiane dos Santos, 34 anos, que atua no viveiro de mudas da Bracell, em Entre Rios. Na empresa há 12 anos, ela vem crescendo na carreira. Atualmente, Tatiane está em sua quinta função no viveiro e, com apoio da empresa, que custeia 60% do curso, se formará, em 2027, em Gestão da Qualidade. Orgulhosa de seu crescimento profissional, ela diz que o trabalho também possibilitou conquistas materiais importantes: a construção de sua casa própria e a aquisição de um carro.

Como cerca de 120 colegas da unidade, Tatiane se desloca diariamente para seu local de trabalho em um ônibus fretado pela empresa. Da janela, ela observa os plantios de eucalipto às margens da estrada e diz que costuma se perguntar: quais daquelas árvores se formaram a partir de mudas que passaram diretamente por suas mãos? A impossibilidade da resposta não diminui o carinho que sente por cada uma delas.

"A reflexão que a gente faz é a de que nosso trabalho não termina no viveiro; ele atinge países diferentes, pessoas diferentes, produtos diferentes. Na verdade, a gente nem imagina onde vai parar. Muitas pessoas que não conhecem o processo, quando vêm visitar, veem que isso aqui é fantástico", declara Tatiane. Ela é mãe de uma menina de 9 anos, que também conta, entre outros benefícios, com a assistência médico-odontológica oferecida pela empresa.

O trabalho de Tatiane integra o de um enorme contingente de profissionais, das mais diferentes áreas, que atuam no setor. Segundo a Abaf, a atividade florestal e as operações industriais beneficiam, no estado, cerca de 242,6 mil pessoas, entre empregos diretos, indiretos e gerados pelo efeito-renda.

Mas os reflexos positivos vão além dos empregos. Por serem realizadas basicamente fora dos grandes centros urbanos, as atividades florestais e industriais de celulose e papel descentralizam o desenvolvimento, gerando oportunidades de qualificação, empregos mais qualificados, arrecadação de impostos e novos negócios nessas regiões.

Um desses negócios é a parceria com produtores rurais que cultivam eucalipto para complementar o suprimento de madeira das fábricas, modalidade que envolve 513 produtores que cultivam quase 88 mil hectares - 13,3% da área total plantada pelas empresas na Bahia.

As compras de fornecedores locais reforçam a importância dos empreendimentos para a economia regional. Uma prática comum entre as empresas é a priorização de fornecedores da região na compra de produtos e serviços para atender às demandas das áreas operacionais e administrativas – e a qualificação dos empresários e comerciantes para que estejam aptos a fornecer segundo padrões de qualidade, segurança e boas práticas de gestão de pessoas.

Dados adicionais divulgados pela Abaf reforçam a dimensão da importância econômica: o setor foi responsável, em 2024, por 4% da arrecadação total da Bahia – R$ 5,5 bilhões – e por 6% do produto interno bruto (PIB) do estado, o equivalente a R$ 24,7 bilhões.

Investimentos sociais

Outra atuação com potencial de transformação das comunidades acontece no campo dos investimentos sociais que cada companhia direciona com o intuito de promover o empreendedorismo, a conscientização ambiental, a educação, a saúde e a segurança pública em suas respectivas regiões de atuação – e além delas. Em 2024, as associadas da Abaf destinaram mais de R$ 57 milhões a investimentos socioambientais, beneficiando 226 mil pessoas em 161 municípios baianos e gerando renda por meio do apoio a grupos produtivos na região.

Muitos desses programas e projetos contemplam famílias da zona rural que, historicamente, têm menos acesso a oportunidades de qualificação para desenvolver seus próprios negócios sem deixar as localidades onde vivem. Também são beneficiados apicultores e meliponicultores, que contam com as áreas de preservação ambiental das empresas para instalar suas colmeias.

É o caso de Mateus Alves Gomes, da comunidade de Juerana, em Caravelas. Ele participa da Feirinha do Espaço Sustentabilidade, desenvolvida pela Suzano em sua fábrica, em Mucuri, no Extremo Sul da Bahia. No espaço, os participantes comercializam seus produtos feitos de forma artesanal. "Sou apicultor desde 2012 e tenho 150 caixas de abelhas em produção. Faço o envase do mel na minha própria casa, e grande parte da produção é enviada para uma exportadora, enquanto o excedente eu comercializo por encomendas e para a feirinha da Suzano. Eu não deixo de participar da feirinha, porque é uma renda extra importante para nossas despesas", ressalta o empreendedor.

Também com destaque, os investimentos em educação reforçam as iniciativas públicas em diversos municípios. Um exemplo é o Projeto Educação Continuada, desenvolvido há 12 anos pela Bracell em 12 municípios do Litoral Norte, Recôncavo, Portal do Sertão e Agreste da Bahia. Nesses municípios, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, indicador criado pelo governo federal para medir a qualidade do ensino nas escolas públicas, melhorou em 10 dos 12 participantes, e os outros dois mantiveram a mesma média de 2023.

Cíntia Liberato, gerente de Comunicação e Relações Institucionais da empresa, observa que "esse cenário reforça o valor do trabalho desenvolvido pelas redes municipais de ensino e da colaboração entre diferentes atores em prol da educação".

Meio ambiente

Graças ao modelo de manejo adotado pelas empresas do setor, elas protegem, juntas, 400 mil hectares de vegetação nativa na Bahia – o equivalente, segundo a Abaf, a 0,8 hectare conservado para cada hectare plantado, acima do exigido pelo Código Florestal. As medidas de conservação incluem vigilância contra desmatamento, furto de madeira, caça e captura de animais silvestres, além de prevenção e combate a incêndios florestais e monitoramento de recursos hídricos.

Entre essas áreas, encontram-se Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), inclusive a maior RPPN de Mata Atlântica do Nordeste: a Estação Veracel, com 6.069 hectares, nos municípios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Considerada um santuário ecológico, a Estação abriga espécies raras como a harpia (Harpia harpyja), uma das maiores aves de rapina do mundo e espécie símbolo das florestas tropicais.

A unidade também registrou 356 espécies de aves e 38 de mamíferos, muitas delas também raras ou ameaçadas de extinção, como o crejoá (Cotinga maculata), a onça-pintada (Panthera onca), a suçuarana (Puma concolor), o macaco guigó (Callicebus melanochir) e a arara-vermelha-grande (Ara chloropterus), que era considerada extinta na região havia mais de 200 anos. Além disso, já foram catalogadas na reserva 926 espécies da flora, das quais 123 em categorias de ameaça.

Apontada como uma das 20 áreas com maior diversidade de árvores do mundo, a Estação Veracel conta com 115 nascentes protegidas, incluindo cursos d'água como o rio Mutari e o rio dos Mangues, que complementa o abastecimento de água do município de Porto Seguro.

"A Estação Veracel é mais que uma área protegida: é um laboratório de esperança onde a ciência e a natureza se reencontram para reparar danos históricos ao nosso bioma", afirma Virgínia Camargos, bióloga e gerente de Meio Ambiente e Gestão Integrada da Veracel Celulose.

A Bracell, por sua vez, é proprietária de quatro RPPNs nos municípios de Entre Rios, Itanagra e Esplanada, que somam 3.081 hectares, com destaque para a Lontra, com 1.379 hectares, reconhecida como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e certificada como Área de Soltura de Animais Silvestres (Asas). Nessas reservas e em outras áreas de preservação ambiental da Bracell, já foram mapeadas 1.750 nascentes, o que evidencia o grau de preservação das propriedades. "A presença desses mananciais indica que o manejo florestal sustentável vem cumprindo os objetivos de conservação ambiental e de uso consciente dos recursos naturais nas nossas propriedades", afirma Joedson Silva, coordenador de Meio Ambiente e Certificações da Bracell.

Segundo ele, a alta qualidade da água nessas nascentes se deve ao fato de, nas atividades de silvicultura, não haver descarte de efluentes ou resíduos nos leitos e mananciais. "Além disso, as matas ciliares estão preservadas, o que evita eventuais interferências de quaisquer usos destas áreas", observa.

Outro aspecto ambiental relevante é o estoque de carbono. De acordo com o Relatório Bahia Florestal 2025, produzido pela Abaf, as empresas associadas mantêm um estoque de 264 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO₂eq), volume 2,4 vezes superior às emissões do estado. Desse total, 173 milhões de tCO₂eq foram contabilizados em áreas de vegetação nativa e 91 milhões de tCO₂eq em áreas de plantios de eucalipto.

Comprometidas em contribuir para a mitigação das mudanças climáticas, as associadas da Abaf formalizaram metas climáticas. Entre as principais estão remover 65 milhões de toneladas de CO₂eq e reduzir em 75% as emissões por tonelada de produto, ambas até 2030.

Com todos esses cuidados, a cada ano, o cultivo do eucalipto fortalece ainda mais a importância do Brasil – único país com nome de árvore – na produção de matéria-prima utilizada em produtos consumidos por bilhões de pessoas em todo o mundo. Enquanto isso, o pau-brasil segue sendo protegido pelas empresas, juntamente com centenas de outras espécies da flora e da fauna silvestres, nos milhares de hectares de vegetação nativa preservados de norte a sul na Bahia.


Em memória de Wilson Andrade, diretor-executivo da Abaf.

18.02.1948 / 08.08.2026

Fonte: www.bahiaemais.com.br


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